Viaggio e Arte · Artigos

Arte

Bernini fora dos museus: o que olhar em Roma

Metade do Bernini mais impressionante está ao ar livre: praças, fontes e uma ponte com dois anjos raros. O que olhar em cada um.

Castel Sant'Angelo visto da Ponte Sant'Angelo, onde estão os anjos de Bernini

Bernini não vive só dentro dos museus. Metade da sua obra mais impressionante está ao ar livre, em praças que você atravessa a caminho de outro lugar, e a maioria das pessoas passa por elas sem saber que está diante de um Bernini.

Piazza Navona: a Fontana dei Quattro Fiumi

No centro da praça mais movimentada do centro histórico, quatro figuras de mármore representam quatro rios de quatro continentes: o Danúbio, o Nilo, o Ganges e o Rio da Prata. Bernini terminou a fonte em 1651, coroada por um obelisco egípcio erguido no topo, quase flutuando sobre a rocha esculpida.

Repare que a figura do Nilo está com a cabeça coberta por um pano. A explicação mais repetida é lendária, não documentada: seria uma provocação de Bernini contra a igreja de Sant'Agnese in Agone, na mesma praça, projetada pelo rival Borromini, como se o rio tapasse os olhos para não vê-la. É uma boa história, mas a razão mais aceita pelos historiadores é mais simples: em 1651 ninguém conhecia a nascente do Nilo, e o rosto coberto representa essa origem desconhecida.

Vale caminhar em volta da fonte para ver os outros três rios de perto: o Ganges segura um remo comprido, lembrando que é navegável; o Danúbio toca o brasão do papa Inocêncio X, que encomendou a obra; e o Rio da Prata está cercado de moedas espalhadas pelo chão de pedra, referência à prata que os espanhóis extraíam da América. Cada detalhe é um continente contando, à sua maneira, o que Roma sabia, ou imaginava saber, sobre o resto do mundo em 1651.

Piazza Barberini: o Tritão

A poucos minutos a pé dali, no centro da Piazza Barberini, o deus marinho Tritão ajoelha-se sobre quatro golfinhos e sopra uma concha da qual jorra água. Bernini esculpiu a fonte entre 1642 e 1643, a pedido do papa Urbano VIII, da família Barberini, cujo brasão, três abelhas, aparece na base. Vale caminhar ao redor para ver a concha de todos os ângulos: o movimento parece continuar mesmo parado.

É uma fonte pequena para os padrões de Roma, sem o volume da de Piazza Navona, mas foi ali que Bernini resolveu um problema técnico que se tornaria assinatura sua: fazer o mármore parecer leve, quase em suspensão, apoiado só nas caudas dos golfinhos. Antes dele, escultura em pedra dificilmente sugeria esse tipo de equilíbrio precário.

Piazza di Spagna: a Barcaccia

Ao pé da Escadaria Espanhola, a Fontana della Barcaccia tem a forma de um barco meio afundado, com a água transbordando pelas bordas. A autoria costuma ser simplificada como obra de Bernini, mas o mais preciso é dizer que ela é de Pietro Bernini, o pai, entre 1627 e 1629, com participação possível do filho Gian Lorenzo, então ainda jovem. O barco afundado não é só efeito poético: a pressão baixa do aqueduto que abastecia a praça obrigou o desenho a ficar abaixo do nível da rua, e Pietro transformou a limitação técnica em imagem.

Hoje a fonte fica cercada por turistas o dia inteiro, mas vale se aproximar da borda para ver os pequenos detalhes esculpidos no casco, como as bocas de canhão de onde a água escorre para dentro do barco, um humor discreto que passa despercebido a quem só fotografa de longe.

Ponte Sant'Angelo: os anjos

Na ponte que leva ao Castel Sant'Angelo, dez anjos de mármore erguem, cada um, um instrumento da Paixão de Cristo, encomenda do papa Clemente IX a Bernini em 1668. Mas os dez anjos que você vê na ponte hoje não são as duas peças que Bernini esculpiu com as próprias mãos: o Anjo com a Coroa de Espinhos e o Anjo com a Inscrição INRI. O papa achou essas duas originais belas demais para ficar expostas ao tempo, e mandou fazer cópias para o lugar delas. Os originais estão guardados até hoje na igreja de Sant'Andrea delle Fratte, perto da Piazza di Spagna, um dos poucos lugares de Roma em que se vê a mão do próprio Bernini de perto, sem vidro e sem multidão. Os outros oito anjos da ponte saíram do ateliê, esculpidos por discípulos como Ercole Ferrata e Antonio Raggi, sob o desenho de Bernini.

Piazza San Pietro: a colunata que abraça

Fechando o percurso, a colunata elíptica que Bernini desenhou para a Praça de São Pedro entre 1656 e 1667 tem centenas de colunas em quatro fileiras, dispostas para que, de um ponto marcado no chão entre os dois chafarizes, elas pareçam uma fileira única. O próprio Bernini descreveu o desenho como os braços maternos da Igreja, abertos para acolher quem chega.

Procure o disco de mármore no chão, entre a fonte e o obelisco egípcio, e pare exatamente sobre ele: é o ponto de onde as quatro fileiras de colunas somem atrás da primeira, um truque óptico que Bernini calculou décadas antes de qualquer conceito moderno de ilusão de perspectiva. Poucos visitantes sabem procurar esse ponto, e menos ainda param nele.

O que fica de fora, e por quê

O Êxtase de Santa Teresa e o Apolo e Dafne ficam dentro de igrejas e museus, não ao ar livre, e por isso não entram neste percurso. Se quiser ir mais fundo na escultura de Bernini depois de vê-lo nas praças, o Nous já escreveu sobre Enéias, Anquises e Ascânio e sobre O Rapto de Proserpina, na Galleria Borghese, além de quem foi Bernini.

Uma Roma barroca sem pressa

Uma consultoria pré-viagem ajuda a ligar essas cinco paradas numa caminhada só, na ordem que aproveita a luz de cada praça. E uma experiência privada do Viaggio e Arte, para grupos de 1 a 6 pessoas, é a companhia para quem quer parar diante de cada fonte e realmente entender o que está vendo.

Vai estar em Roma?

Experiências privadas, experiências sob medida e consultoria pré-viagem, para grupos de 1 a 6 pessoas. Conte suas datas e o que você quer descobrir.

Conversar no WhatsApp