A Capela Sistina costuma tomar toda a atenção quando se fala de Michelangelo em Roma. Mas boa parte da obra dele na cidade está fora do Vaticano, em lugares que não pedem ingresso nem fila, e que a maioria dos visitantes atravessa sem saber o que tem diante dos olhos.
Basílica de São Pedro: a Pietà e a cúpula
Logo à direita de quem entra na Basílica de São Pedro, protegida por um vidro desde os anos 1970, está a Pietà, esculpida por Michelangelo aos 23 anos, a única obra que ele assinou na vida. Se quiser entender por que Maria tem o rosto de uma jovem, mais jovem até do que o filho morto nos braços, o Nous já escreveu sobre isso em A Pietà, de Michelangelo.
O vidro que protege a escultura hoje é consequência de um ataque sofrido em 1972, quando um homem a atingiu com um martelo e danificou o braço e o rosto de Maria, depois restaurados. É por isso que a Pietà, diferente do Moisés e do Cristo da Minerva, só pode ser vista a uma certa distância, nunca de perto.
Erga os olhos, e a cúpula que cobre o altar-mor também é dele: Michelangelo assumiu o projeto da basílica em 1546 e deixou pronto o modelo da cúpula antes de morrer, em 1564, embora a construção só tenha sido concluída décadas depois, por Giacomo della Porta, que a ergueu mais alta do que o modelo original previa. É a mesma mão que pintou o teto da Sistina, agora pensando em pedra e peso, não em pincel.
Quem quiser, pode subir até a lanterna no topo da cúpula, de onde se vê Roma inteira aos pés, incluindo o traçado da Piazza San Pietro e a colunata de Bernini logo abaixo. A subida tem escadas estreitas e trechos apertados perto do fim, então confira condições e regras de acesso no site oficial da basílica antes de decidir.
San Pietro in Vincoli: o Moisés
A poucos minutos do Coliseu, a igreja de San Pietro in Vincoli guarda um dos trabalhos mais intensos de Michelangelo: o Moisés, parte do túmulo que ele projetou para o papa Júlio II, terminado por volta de 1515. Repare nos dois pequenos chifres na testa da figura, e no motivo real por trás deles, que o Nous conta em O Moisés, de Michelangelo: não é engano do escultor, é um erro de tradução da Bíblia cometido mil anos antes dele nascer. A igreja tem esse nome, São Pedro Acorrentado, por guardar também as correntes que, segundo a tradição, prenderam o apóstolo Pedro na prisão.
Vale reparar na postura do Moisés: o corpo está torcido, como se ele estivesse prestes a se levantar do trono, e a mão esquerda segura as Tábuas da Lei quase por acidente, distraída, enquanto o olhar mira algo fora do quadro. É essa tensão entre repouso e explosão que faz a figura parecer tão perto de se mover.
Piazza del Campidoglio: a praça desenhada como escultura
No topo da colina mais sagrada da Roma antiga, o papa Paulo III encomendou a Michelangelo, a partir de 1536, o redesenho de toda a praça: os dois palácios que a emolduram, a escadaria de acesso e um piso de mármore com uma estrela de doze pontas que se irradia a partir do centro. O desenho ficou pronto ainda no século XVI, mas o piso, como Michelangelo o imaginou, só foi pavimentado de fato em 1940, por ordem de Mussolini, quase quatrocentos anos depois.
No centro da praça está a estátua equestre de Marco Aurélio, colocada ali por decisão do próprio Michelangelo. Preste atenção: a peça de bronze que você vê hoje ao ar livre é uma cópia, feita em 1981, quando o original, um dos poucos bronzes romanos que sobreviveram à Idade Média, foi retirado por causa da corrosão e hoje está protegido dentro dos Museus Capitolinos, que ficam nos dois palácios ao redor da mesma praça.
Santa Maria sopra Minerva: o Cristo da Minerva
Perto do Panteão, dentro da única igreja gótica do centro de Roma, está o Cristo Redentor de Michelangelo, também chamado Cristo da Minerva: uma figura nua carregando a cruz, encomendada em 1514. A primeira versão foi abandonada por causa de uma veia negra que apareceu no mármore do rosto; a segunda, concluída por volta de 1521, foi finalizada em Roma por um assistente, Pietro Urbano, que estragou parte do acabamento e precisou ser substituído às pressas. Séculos depois, uma tanga de bronze dourado foi acrescentada aos quadris, provavelmente em resposta ao pudor que a Contrarreforma passou a exigir das imagens sacras, algo que Michelangelo jamais havia previsto.
O resultado é uma figura estranha de se olhar de perto: o corpo nu, musculoso, de um jovem grego clássico, carregando os instrumentos da própria morte como quem segura um objeto qualquer, sem drama no rosto. É um Cristo triunfante, não sofredor, e é justamente esse contraste com o sofrimento que Michelangelo esculpiu na Pietà, décadas antes, que mostra como a leitura dele sobre o mesmo tema mudou ao longo da vida.
Um percurso, não uma lista
Essas quatro paradas ficam a uma caminhada tranquila umas das outras, e olhadas na ordem certa formam uma linha só: o escultor jovem da Pietà, o escultor maduro do Moisés, o arquiteto do Campidoglio e da cúpula, o velho que ainda discutia proporção e pudor no Cristo da Minerva. Para quem já viu a Sistina e quer entender o resto do homem por trás dela, o Nous também tem quem foi Michelangelo.
Ver Michelangelo inteiro
Uma consultoria pré-viagem ajuda a organizar essas quatro paradas num só dia, sem repetir caminho. E uma experiência privada do Viaggio e Arte, para grupos de 1 a 6 pessoas, é para quem quer ouvir, diante de cada obra, o porquê de cada escolha de Michelangelo.