No meio do Tibre, entre o Trastevere e o antigo Gueto judeu, há uma ilha pequena, alongada, com a forma de um barco. Muita gente a atravessa sem perceber que está pisando num dos lugares mais carregados de história de Roma, e num dos poucos onde a mesma vocação reaparece através dos séculos.
Uma ilha nascida de uma revolta
Tito Lívio conta que, quando os romanos expulsaram o último rei, Tarquínio, o Soberbo, a colheita de um campo da família dele, consagrado a Marte, foi jogada no rio, porque ninguém ousou aproveitá-la. Com o rio baixo, o grão parou no leito e, segundo a lenda, ali se formou terra firme. Mito ou não, a história diz algo sobre como Roma via a ilha: um pedaço de chão nascido do fim da monarquia, quase um território à parte dentro da cidade.
A serpente de Esculápio
No começo do século III a.C., durante uma peste, Roma mandou buscar em Epidauro, na Grécia, o culto de Esculápio, o deus da medicina. A tradição conta que a serpente sagrada do deus saltou do navio que a trazia e nadou até a ilha, escolhendo ela mesma onde queria morar. Ali se ergueu o templo de Esculápio. Ovídio narra a cena no último livro das Metamorfoses, como fecho de um poema inteiro sobre transformações.
Mais tarde, para marcar a lenda, os romanos deram à ilha a aparência do navio que trouxe o deus, revestindo uma das pontas de pedra em forma de proa. Restam traços dessa proa, com o bastão e a serpente de Esculápio, o mesmo símbolo que a medicina usa até hoje.
A ponte mais antiga de Roma
A ilha se liga às margens por duas pontes de origem romana. A mais antiga, a Ponte Fabrício, foi construída em 62 a.C. e continua de pé e em uso, a ponte mais antiga de Roma que chegou aos nossos dias na forma original. Atravessá-la é pisar numa obra que já existia quando Júlio César ainda era vivo.
Uma vocação que volta
Sobre as ruínas do templo, o imperador Oto III mandou erguer, por volta do ano 1000, uma igreja hoje dedicada a São Bartolomeu. E na mesma ilha funciona, desde o século XVI, o hospital dos irmãos de São João de Deus, os Fatebenefratelli. A ilha aonde os romanos iam pedir cura a Esculápio voltou a ser um lugar de cura: mudaram os deuses, os nomes e a medicina, e ela segue cuidando de quem chega doente.
Ver mais do que se vê sozinho
A ilha fica colada ao Trastevere, o bairro do outro lado do Tibre, e é dele que ela faz parte na memória de Roma. Para entender essa margem do rio com alguém que conta o que cada pedra guarda, o Viaggio e Arte faz o passeio pelo Trastevere, a pé e para grupos de 1 a 6 pessoas.